domingo, 28 de julho de 2024

QUEM MATOU LEDA?

Título Original: À Double Tour
Diretor: Claude Chabrol
Ano: 1959
País de Origem: França
Duração: 94min
Nota: 8

Sinopse: O negociante Henri Marcoux tem um caso amoroso com uma bela e jovem vizinha, bem debaixo do nariz de sua esposa. Sua linda filha está apaixonada por um húngaro boêmio, enquanto o filho Voyeur começa a ter liberdades com a amante do pai. Com o amadurecimento das paixões na família, deslumbra-se uma tragédia.
 
Comentário: Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do prêmio de Melhor Atriz para Madeleine Robinson no Festival de Veneza. Eu confesso que esperava mais, mas no geral é um filme muito bom pelo que há nas entrelinhas. Vejo pessoas dizendo que o filme é "white people problems", mas é exatamente isso que Chabrol usa como critica a classe burguesa, há várias camadas para serem analisadas a respeito. O elenco todo está muito bem, mas é a minha crush Bernadette Lafont que rouba todas as cenas em que aparece na minha opinião. Gostei do ritmo, mas achei estranho que o assassinato de Leda fique tão evidente no poster do filme, por exemplo, já que não é algo que aconteça no começo do filme (O título do Brasil então é mais descarado ainda), mas não estraga a experiência.



segunda-feira, 17 de junho de 2024

GESTAPO

Título Original: Night Train to Munich
Diretor: Carol Reed
Ano: 1940
País de Origem: Inglaterra
Duração: 95min
Nota: 8

Sinopse: Depois que a Alemanha invade a Tchecoslováquia, os serviços de inteligência alemães e britânicos tentam capturar o cientista tcheco Dr. Axel Bomasch (James Harcourt), inventor de um novo tipo de blindagem.
 
Comentário: Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Filme lançado durante a guerra que já mostra vários elementos que não estavam só na ficção: um campo de concentração de prisioneiros e a guerra fria entre as potências por cientistas e tecnologia, tudo isso em um clima no melhor estilo de livros do Graham Greene ou John le Carré. O clima do filme, mesmo com situações forçadas em vários momentos, funciona perfeitamente bem, te envolve, cria apreensões e situações cômicas dignas de um filme do Billy Wilder. Achei que faltou mais enredo para a personagem da Margaret Lockwood, que só serve de muleta como figura feminina para Rex Harrison (que está ótimo), mas eram os anos 40, nada de novo no front. A cena final é incrível e icônica. Um filme que merece ser revisto nos dias atuais, e pensar que saiu no começo da guerra, imagina vendo em um cinema na época o impacto que teve.



terça-feira, 4 de junho de 2024

CHARLOTTE E SEU BIFE

Título Original: Présentation ou Charlotte et Son Steak
Diretor: Eric Rohmer
Ano: 1960
País de Origem: França
Duração: 9min
Nota: 7

Sinopse: Charlotte está de partida. Antes de pegar o trem, vai ao seu apartamento para uma refeição ligeira - um bife. Walter a acompanha; o curto espaço de tempo em que Charlotte prepara seu bife representa para ele a oportunidade de acertar as coisas com ela.

Comentário: O curta trás todo o estilo de Rohmer, tem sua impressão digital. Acredito que essa história de que a filmagem foi recebida por um estranho e depois fizeram a montagem tenha sido uma piada interna entre ele e o Godard para se criar um mito em torno da obra, mas que não faz muito sentido já que o próprio Godard aparece na filmagem. É bem legal e bem simples também, funciona por conta disso, como tudo do Rohmer, é uma cena cotidiana. Engraçado é ver que o bife simplesmente some quase por completo do prato de Charlotte entre um take e outro.



sábado, 1 de junho de 2024

OS FUZIS

Título Original: Os Fuzis
Diretor: Ruy Guerra
Ano: 1964
País de Origem: Brasil
Duração: 84min
Nota: 9

Sinopse: Um grupo de soldados é enviado ao nordeste do Brasil para impedir que cidadãos pobres saqueiem armazéns por causa da fome.

Comentário: Indicado ao Urso de Ouro e vencedor do Prêmio Especial no Festival de Berlim. Que filmaço! Nelson Xavier com mó pinta de galã e mandando muito bem, e Átila Iório roubando as cenas como o grande herói do filme. Ruy Guerra conseguiu fazer uma obra prima aqui, infelizmente a captação do som nessa época no cinema nacional era muito ruim, mesmo tendo assistido a cópia restaurada ainda tem momentos ruins de entender o diálogo. Acho que o filme podia explorar muito mais coisas, mas devido as tensões da época em que foi lançado entendo a necessidade de ser curto e direto. Merece ser visto e revisto, assisti logo depois da morte de Paulo César Peréio, um dos grandes atores brasileiros e que aqui fazia sua estreia de maneira brilhante e muito competente e ainda de quebra tem uma das melhores cenas do filme. Peréio vive! Infelizmente a fome no sertão também. Até quando?



segunda-feira, 13 de maio de 2024

10 ANOS DE ORÁCULO ALCOÓLICO


 

Meio que para não passar em branco, brindemos, hoje faz 10 anos que eu fiz o primeiro post no meu blog de cinema Oráculo Alcoólico.


Eu sempre amei o cinema, considero ele uma fonte importantíssima de literatura (mas isso é um assunto para outro texto), desde pequeno fui fascinado, lembro a primeira vez que entrei em uma sala de cinema para assistir A Ratinha Valente, na saída vi o pôster de Superman III e voltamos para assistir este também (portanto lembro também a segunda vez em que estive em uma sala de cinema). Um dos primeiros filmes que assisti na minha vida (na TV) foi A Fuga do Planeta dos Macacos de 1971, lembro que fiquei chocado aos meus 3 anos do porque os humanos estavam tratando os macacos daquele jeito e meu pai me respondeu ao ser questionado: “a humanidade é ruim”. Meu pai não teria como saber como essa frase teria um efeito ressoando no tempo através de mim até hoje (isto também é assunto para outro texto ou sessões de terapia).


Em 1997 muita coisa mudou quando assisti ao Estrada Perdida de David Lynch no cinema, comecei a procurar por filmes fora do padrão e me voltei aos clássicos. Filmes como Cidadão Kane, O Terceiro Homem, Levada da Breca ou Rastros de Ódio marcaram o final do meu período de adolescente e o começo da minha fase adulta.


Então chegou a era do DVD.


Comprava muitos títulos em promoção nas Lojas Americanas, tinha uma coleção imensa de DVDs, e de vez em quando gastava um pouco mais em algumas raridades que chegavam a custar até 5 vezes mais. Foi no final de 2013 que percebi que estava preso em um “catálogo” de DVDs em promoção, perdia muito tempo assistindo filmes ruins. Decidi mergulhar no torrent, buscar filmes clássicos que custavam muito caro para comprar e parar de comprar DVDs blockbusters. Traçando um paralelo eu vejo que minha situação naquela época era muito semelhante com quem está preso em catálogos de streamings hoje em dia, que possui uma vasta quantidade de porcarias para assistir.


Comecei a assistir tudo que eu achava dos anos 60, de tudo que era país possível. Em maio de 2014 eu percebi que já havia assistido uma boa quantidade de filmes e resolvi catalogar esses filmes, mas como fazer isso? Foi então que decidi abrir um blog para este intuito, mas somente escrever uma ficha técnica e minhas impressões, da maneira mais simples possível, sobre o filme. E assim no dia 13 de maio de 2014 eu publicava minha primeira resenha sobre o maravilhoso filme Rocco e Seus Irmãos do diretor Luchino Visconti. O nome do blog eu tirei de uma cena do La Dolce Vita de Fellini. De lá para cá foram mais de 500 resenhas de filmes clássicos de 30 países diferentes.


Quase cinco anos depois decidi abrir um outro blog para filmes mais atuais (que abrangem filmes de 1970 para frente), o Filmestrangeiros, porém este último com quase nenhuma resenha de filmes americanos. Juntando os dois blogs já são quase mil filmes resenhados. Ambos partilham do mesmo Instagram @filmestrangeiros.


E é isso. 10 anos, não de sucesso, nem de likes ou compartilhamentos. 10 anos de fazendo o que gosto. Um brinde a isso.

sábado, 11 de maio de 2024

DIAS DE IRA

Título Original: Vredens Dag
Diretor: Carl Theodor Dreyer
Ano: 1943
País de Origem: Dinamarca
Duração: 37min
Nota: 10

Sinopse: Em uma pequena aldeia, uma jovem madrasta se apaixona pelo filho de seu marido pastor, em meio à violenta caça às bruxas do século XVII

Comentário: Que filmaço! Fui assistir sem esperar muito e foi uma bela surpresa. Brilhante é pouco para rotular toda a parte inicial com a caça a Herlufs Marte, magistralmente interpretada por Anna Svierkier que estreou no teatro em 1904, mas nunca havia despontado como atriz de sucesso. Imaginem a perda incalculável para as artes cênicas, porque a presença de cena em todos os momentos em que ela aparece é uma força da natureza. No restante o filme consegue colocar o dedo na ferida em todo o bom costume conservador cristão da época, cria um debate sobre muitas coisas que estão em várias camadas da sociedade com diferentes interpretações dependendo dos personagens. Uma verdadeira aula antropológica histórica. A parte técnica é outro deleite, cada tomada é uma obra de arte, merece ser lembrado no panteão dos grandes clássicos.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

UMA HISTÓRIA D'ÁGUA

Título Original: Une Histoire A'Eau
Diretores: Jean-Luc Godard & François Truffaut
Ano: 1961
País de Origem: França
Duração: 11min
Nota: 5

Sinopse: Uma jovem narra sua aventura de tentar ir a Paris em meio a uma tempestade, que pouco a pouco vai inundando vilas e caminhos possíveis.

Comentário: A verdade é que achei bem meia boca, tentei gostar, mas não rolou. Truffaut é um dos meus diretores preferidos e Godard é sempre um gigante, mas aqui a união dos dois não funcionou para mim. A verborragia incessante é chata, meio pedante, é um problema que tenho com algumas obras do Godard, ele parece ter momentos que quer se mostrar demais como um intelectual erudito com ideias geniais e que só funcionam na cabeça dele. É quando o diretor deixa essas coisas de lado e pisa na realidade mais acessíveis a nós, meros mortais, que ele funciona. As cenas são lindas, a parte técnica do filme é perfeita. Quando a verborragia cessa e os personagens finalmente vão conversar é meio vergonha alheia, um diálogo bobo. Só vale a pena para quem for fã mesmo. Talvez funcione melhor no mudo.



sábado, 27 de abril de 2024

O PEQUENO SOLDADO

Título Original: Le Petit Soldat
Diretor: Jean-Luc Godard
Ano: 1963
País de Origem: França
Duração: 88min
Nota: 9

Sinopse: Durante a guerra da Argélia por independência da França, um jovem francês que pertence a um grupo terrorista de direita e uma jovem que pertence a um grupo terrorista de esquerda se encontram e se apaixonam. A situação se complica quando o grupo terrorista suspeita que o rapaz é um agente duplo.

Comentário: O filme é tão intenso no que denunciava na época que foi censurado pela França só sendo lançado um par de anos depois. O filme é incrível, o personagem é grotesco em vários sentidos: egoísta, babaca, narcisista, chato (enfim, todas as qualidades básicas de um filiado de um partido de direita). Anna Karina está deslumbrante, cativa do momento que aparece ao último minuto em cena, fácil perder uma aposta em não se apaixonar. O último diálogo no apartamento dela entre os protagonistas é maravilhoso, mostra bem o que ambos defendem e de que lado estão (ele está do lado dele mesmo). O filme é intrincado, mas é genial. 



segunda-feira, 1 de abril de 2024

3 LP'S AMERICANOS

Título Original: 3 Amerikanische LP's
Diretor: Wim Wenders
Ano: 1969
País de Origem: Alemanha
Duração: 13min
Nota: 8

Sinopse:Existem certas músicas que evocam imagens que são mais visuais do que a maioria dos filmes hoje em dia. Aqui, Wenders combina cenas filmadas na Alemanha dentro de um carro com música que inspira paisagens americanas. Enquanto isso, Wenders e Peter Handke discutem música americana.
 
Comentário: Apesar do meu desprezo e nojo por Peter Handke, meu amor pelo Wim Wenders é maior e fui assistir este curta metragem que não conhecia. Interessante como a obra do diretor tem uma ligação tão forte com a música. Fiz um deep listening nos álbuns depois de ver o filme. Adoro o álbum Astral Weeks do Van Morrison, dos três é de longe o que mais escutei na vida, mas achei estranho escolherem um músico irlandês para falar de música americana, não considero o Transa do Caetano Veloso um álbum britânico assim como não considero o Heroes do Bowie um álbum alemão, pensando nessa pegada mais folk, o próprio Bob Dylan já tinha lançado o Nashvile Skyline e encaixava melhor já que o assunto era álbuns americanos. Creedence Clearwater Revival era uma banda que ouvia bastante na época da faculdade, rock bem clássico, não me lembro de ter ouvido este álbum em específico, eu tinha uma coletânea e ouvi mais o Cosmo's Factory de 1970. Cristo Redentor, o álbum de estreia do Harvey Mandel era completamente desconhecido para mim, gostei bastante e me remeteu bastante a obra de Ry Cooder, tão amalgamado na própria obra de Wenders. Vale a assistida.



quinta-feira, 28 de março de 2024

ERA UMA VEZ UM PAI

Título Original: Chichi Ariki
Diretor: Yasujirô Ozu
Ano: 1942
País de Origem: Japão
Duração: 87min
Nota: 9

Sinopse: Shuhei Horikawa, professor viúvo, luta para criar sozinho seu filho Ryohei sozinho, sem dinheiro nem perspectivas de futuro espera que seu filho conquiste uma vida melhor que a dele.

Comentário: Que baita filme do Ozu, fazia tanto tempo que não assistia algo do diretor. O filme emociona demais em seu desfecho aumentando em muito a nota dele. Impressionante como o diretor consegue dinamismo em seus filmes sem movimentar a câmera nenhuma vez. Os atores são uma simpatia à parte. Interessante notar que o filme foi feito na época em que o Japão estava lutando durante a 2ª Guerra Mundial, e é possível notar pelo discurso do pai aquilo que era tentado passar para a população como "Deem o seu melhor que tudo vai dar certo" ou "Estamos em dificuldade agora, mas as coisas irão melhorar no futuro", muitos detalhes do filme remetem a guerra em curso nas entrelinhas. O respeito cultural que eles tem pela figura do professor era algo que o mundo ocidental deveria ter copiado há muito tempo.