domingo, 3 de novembro de 2024

VELAS ESCARLATES

Título Original: Alye Parusa
Diretor: Aleksandr Ptushko
Ano: 1961
País de Origem: Rússia
Duração: 83min
Nota: 7

Sinopse: Poética adaptação do conto de fadas de Alexander Grin. Após a morte da esposa, Longren, um marinheiro aposentado, vive em uma pequena aldeia de pescadores com a sua filha, Assol. Até que, a menina conhece um feiticeiro que lhe faz uma previsão: “...Quando um belo navio com velas vermelhas chegar, um nobre príncipe irá levá-la para longe daqui...” Os habitantes locais logo começam a fazer piadas sobre o acontecido, mas a jovem acreditava em milagres e esperou...

Comentário: Bela produção soviética sobre a esperança de que dias melhores virão. A história e seu desenrolar é um pouco inocente demais e torna o filme bastante previsível de tudo o que irá acontecer, porém é muito gostoso de assistir, uma típica história que poderia ser adaptada para um desenho Disney de sucesso, e que funciona para passar o tempo. Há uma crítica muito bem colocada a figura controladora do pai, um burguês cheio da grana que quer controlar a vida de seu filho, mas é quando o filho quebra essa corrente da família burguesa e vai viver em meio aos trabalhadores que sua vida floresce. Achei a forma como isto foi colocado muito bonita. A curta duração requer que tudo aconteça muito rápido, funciona, mas você acaba querendo ver mais sobre os personagens no filme. Tanto a direção de Aleksandr Ptushko quanto o roteiro seguem uma certa cartilha de filmes comerciais da época, nada que prejudique a assistida.



quarta-feira, 16 de outubro de 2024

M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF

Título Original: M
Diretor: Fritz Lang
Ano: 1931
País de Origem: Alemanha
Duração: 109min
Nota: 10

Sinopse: Quando a polícia de uma cidade alemã não consegue encontrar um assassino de crianças, outros criminosos decidem ajudar na caçada humana.

Comentário: Finalmente assisti, eu até havia comprado em VHS quando era adolescente, mas foi um daqueles filmes que ficaram na fila por décadas. Intrigante que Fritz Lang tente manipular o espectador para humanizar o assassino, na tentativa de tirar-nos da turba que quer linchá-lo, justo o Sr. Lang que tinha em seu currículo a morte da primeira esposa (Lisa Rosenthal) como uma das mais mal explicadas da história do cinema, a qual muitos biógrafos concordam de que Lang a assassinou em 1921. Típico do assassino dizer que vive um tormento depois que é pego, pois até aquele momento ele me parecia muito bem, seu único tormento me parecia ser o medo de ser descoberto, talvez o mesmo que o diretor tinha. Não fui dissuadido a abandonar a turba, eu teria ido até as últimas consequências contra um assassino de crianças. Tirando o ser humano com valores bem duvidosos que era o diretor, como profissional do cinema era realmente um fenômeno, o filme te prende, tem um ritmo eletrizante e diálogos excelentes. Peter Lorre dá um show e é interessante ver Otto Wernicke interpretando o Inspetor Lohmann, papel que iria reprisar no O Testamento do Dr. Mabuse, filme que Lang faria na sequência deste. Filme obrigatório.


domingo, 6 de outubro de 2024

PRISÃO FEMININA

Título Original: Nedamatgah
Diretor: Kamran Shirdel
Ano: 1965
País de Origem: Irã
Duração: 10min
Nota: 8

Sinopse: Prisão Feminina narra a vida das prisioneiras e os problemas que suas famílias enfrentam para sobreviver. As entrevistas com as prisioneiras, assistentes sociais e professores servem como registro documental.
 
Comentário: Curta documental de um Irã pré revolução de 1979 onde é possível ver que nem tudo eram flores naquela época, inclusive há problemas muito similares com o Irã de hoje. As mulheres relegadas a segunda classe por uma sociedade que sempre teve um pé no fundamentalismo religioso. Cena de crianças nas prisões junto com suas mães são assustadoras para nossa sociedade de hoje. O filme é interessante mais como registro histórico, é verdade, mas também serve como diálogo, e muito, para a sociedade que construímos a partir deste passado que nos parece tão remoto. As coisas estão tão diferentes assim? Lógico que há diferenças, mas na espinha dorsal do problema, ainda estamos no mesmo lugar na minha opinião. Impressionante como o diretor consegue ser preciso e cirúrgico em apenas 10 minutos.



sexta-feira, 27 de setembro de 2024

A PECADORA

Título Original: Seven Sinners
Diretor: Tay Garnett
Ano: 1940
País de Origem: EUA
Duração: 86min
Nota: 9

Sinopse: Banida de vários protetorados dos EUA no Pacífico, uma artista de salão usa seus encantos de mulher fatal para cortejar políticos, militares, gângsteres, ralé, juízes e um médico de navio para atingir seus objetivos.

Comentário: Sempre quis ver e fui deixando para depois. Filmaço! Marlene Dietrich é a grande estrela aqui, Wayne é um mero coadjuvante. Um roteiro que dá alfinetadas no patriarcado a todo momento em pleno início da década de 40. Vemos aqui tudo o que podia ter sido melhor trabalhado em Gilda com Rita Rayworth (e ter visto esses filmes tão próximos um do outro foi uma feliz coincidência). Não há uma desconstrução da personagem de Dietrich em prol dos bons costumes, ela não muda para se adequar ao amor masculino de Wayne, e o mais revolucionário é que ele não quer que ela mude. O nível de aceitação dos padrões da personagem pelo público e pela história que está sendo contada é avassalador. O elenco de apoio ajuda muito a fazer tudo funcionar e ver Dietrich cantar é sempre um colírio para os olhos (assim como Rita em Gilda). Um dos grandes filmes da década e imensamente subestimado. Direção de Garnett é competente, mas é Dietrich que brilha imensamente aqui.



segunda-feira, 9 de setembro de 2024

GILDA

Título Original: Gilda
Diretor: Charles Vidor
Ano: 1946
País de Origem: EUA
Duração: 110min
Nota: 8

Sinopse: Um apostador contratado para trabalhar em um cassino de Buenos Aires descobre que a nova esposa de seu chefe é seu antigo amor.
 
Comentário: Indicado ao Grande Prêmio do Festival de Cannes (ainda não existia a Palma de Ouro nessa época). O filme é recheado de um machismo misógino que faz com que o filme não tenha envelhecido tão bem, portanto é preciso deixar isto de lado para aproveitar a sessão. Rita Hayworth está deslumbrante (falar mais sobre isso seria redundante), cativa e merecia uma indicação ao Oscar pela entrega ao papel, mas naquela época as indicações eram mais para papéis melodramáticos. Tive vários gatilhos da minha vida que não vêm ao caso, mas já cheguei a ter uma planta que cuidei por mais de vinte anos com o nome de Gilda por conta deste filme, enfim... demoraria demais para explicar aqui (hahahaha). Glenn Ford está ótimo, e a direção de Vidor é perfeita. Um filme, que mesmo com os defeitos para os padrões de hoje ainda é muito bom de se assistir, a nota continua alta.



quarta-feira, 4 de setembro de 2024

GENTE DO PÓ

Título Original: Gente del Po
Diretor: Michelangelo Antonioni
Ano: 1947
País de Origem: Itália
Duração: 11min
Nota: 7

Sinopse: Primeiro documentário de Michelangelo Antonioni, onde ele já revela seu estilo consistente em retratar a paisagem interior do homem em sua relação com a paisagem que o circunda. Aqui, o cineasta documentou a vida dos barqueiros e dos ribeirinhos do vale do rio Pó.

Comentário: Foi aqui que Antonioni se apresentou para o mundo como diretor, nesse curta documental de onze minutos. Foi filmado em 1943, mas devido a II Guerra Mundial em curso, foi editado somente em 1947, ano de seu lançamento. A música de Mario Labroca dispensa qualquer texto adicionado, as imagens são como poesia e a música combina muito bem com ela. Apesar do texto servir para contextualizar um pouco as coisas, achei que não era nem um pouco necessária. As imagens são lindíssimas, Antonioni já mostra aqui seu talento e todo o seu olhar técnico do que se tornaria dali em diante. Não há uma história, uma narrativa, mas mesmo assim cria-se uma atmosfera nostálgica e histórica.



segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O SAMURAI

Título Original: Le Samouraï
Diretor: Jean-Pierre Melville
Ano: 1967
País de Origem: França
Duração: 105min
Nota: 9

Sinopse: O matador Jeff Costello é um perfeccionista: ele sempre planeja com extremo cuidado todos os seus assassinatos para nunca ser pego. Uma noite, porém, ele finalmente é surpreendido por uma testemunha, e aos poucos, a partir daí, ele vai sendo cada vez mais pressionado.

Comentário: Devastado com a morte do Alain Delon, cheguei do trabalho e assisti na madrugada este clássico que ainda não havia assistido. É um baita filme, a história é envolvente, mas é a trilha sonora com a direção, emulando o perfeccionismo do próprio personagem interpretado por Delon, que faz o filme ter a força que tem. Cada cena é um quadro a ser contemplado, cada gesto do Delon é digna de atenção. O final, não darei spoilers, me deixou pensativo em vários pontos que ligam ao título e ao destino da personagem de Cathy Rosier, que está ótima interpretando a pianista. Um típico filme que mistura o clássico noir americano, com os filmes policiais da época. A interpretação mais mecânica, sem muitos traços emotivos, de Delon dá ao personagem uma profundidade que dá para ficar pensando por dias a fio. Fica aqui minha homenagem ao Homem Mais Bonito do Mundo que nos deixou ontem, mas que não era só isso, era um grande ator e um ser humano cheio de complexidades que fizeram dele ser quem era: um ícone do cinema.



sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A MARCA DA MALDADE

Título Original: Touch of Evil
Diretor: Orson Welles
Ano: 1958
País de Origem: EUA
Duração: 110min
Nota: 10

Sinopse: Ao investigar um assassinato, Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano em lua-de-mel em uma pequena cidade da fronteira dos Estados Unidos com o México, entra em choque com Hank Quinlan (Orson Welles), um corrupto detetive americano que utiliza qualquer meio para deter o poder.

Comentário: Que Welles era um gênio, isso é indiscutível, sempre protelei ver este filme da mesma maneira que protelo ler todos os livros do Hemingway, porque daí não vai sobrar nenhum. Assisti a versão restaurada editada conforme especificações do diretor, nunca vi a anterior. É um filme noir básico em muitos aspectos e tenho certeza que Welles sabia disso, é quase como se ele fizesse uma homenagem ao gênero (Marlene Dietrich e seus momentos acho que condizem com minha linha de pensamento), é como se Welles pegasse todo o caldo do noir da década de 30 e subvertesse em algo seu, em algo novo que parecesse o mesmo em alguns aspectos. Janet Leigh, mesmo subaproveitada brilha, mas é Welles que desafia as leis das artes cênicas (se houvessem tais leis) em sua atuação impressionante de Hank Quinlan, com todo o respeito ao David Niven que ganhou o Oscar naquele ano por Vidas Separadas, mas que atuação monstro do Welles aqui. Até o Heston convence um pouco como mexicano.



domingo, 4 de agosto de 2024

O CARROCEIRO

Título Original: Borom Sarret
Diretor: Ousmane Sembene
Ano: 1959
País de Origem: Senegal
Duração: 20min
Nota: 8

Sinopse: Em O carroceiro, do diretor senegalês Ousmane Sembène, temos a história de um homem pobre que tenta ganhar a vida como carroceiro em Dakar.
 
Comentário: É o começo do cinema africano e um marco que reflete as diferenças de classes sociais tão evidentes em qualquer país que sofreu com o colonialismo europeu. Nem um pouco diferente de países latinoamericanos, as cenas no bairro rico da cidade em pleno final da década de 50 mostra uma África que muitos europeus ou estadunidenses não imaginam que existisse, já que insistem em acreditar que é tudo selva e pouco desenvolvido nos países do sul global. A história é muito simples, mas funciona, escancara esse reflexo indigesto da pobreza que só piora quase setenta anos depois. Impressionante como esse tipo de denúncia já existia desde então e nada foi feito, e tudo piorou, em um mundo onde a concentração de renda tornou esse tipo de vida que vemos no filme ainda mais comum por todo o mundo. Crises humanitárias e genocídios por toda a parte. Até quando?



sábado, 3 de agosto de 2024

OLHO POR OLHO

Título Original: Olho Por Olho
Diretor: Andrea Tonacci
Ano: 1966
País de Origem: Brasil
Duração: 20min
Nota: 9

Sinopse: Grupo de amigos de classe média passeiam de carro por São Paulo enquanto a câmera os acompanha. Vão pegando outras pessoas pelo caminho afim de por em prática sua alienação e agressividade moral.

Comentário: Maravilhoso trabalho de estreia de Tonnaci, ícone do cinema marginal. Todo o desenrolar é maravilhoso, com forte influência da nouvelle vague francesa, mas com uma identidade própria. As imagens da cidade de São Paulo são um brinde à parte. É possível até conferir a icônica loja da Varig na Rua dos Andradas e Borges de Medeiros em um momento. A trilha sonora é outra coisa muito boa, que ajuda no ritmo e a cravar a época dessa juventude entre o rock 'n roll e a bossa nova. O próprio desenrolar e o desfecho mostra de uma forma crua a sociedade que criamos e que está aí até hoje, uma espécie de protofascismo. O embrião já estava lá, mas é ainda anterior a 1966.